A rede de restaurantes do chef celebridade britânico Jamie Oliver entrou em recuperação judicial, tornando-se a mais nova vítima de uma queda no movimento nos estabelecimentos comerciais do Reino Unido. O acontecimento, apenas um ano após o grupo ter declarado insolvência para fechar dezenas de seus restaurantes da marca Jamie’s Italian, resultará na perda de mil empregos diretos.

Franquias no país mantêm operação

Dos 25 restaurantes do grupo no Reino Unido, 22 foram fechados, restando apenas três em operação. A empresa é dona das marcas Jamie’s Italian, Barbecoa e Fifteen.

A recuperação judicial foi pedida apesar de uma pesada reestruturação e da injeção de 12,6 milhões de libras no Jamie’s Italian do próprio Oliver em 2017. O Barbecoa, que operava duas churrascarias em Londres, passou por uma recuperação extrajudicial no ano passado que resultou no fechamento de uma das duas unidades.

Desde então, Jamie Oliver disse que não tem mais recursos para aplicar nos restaurantes, apesar de ser uma rede que, segundo alguns, vale mais de 200 milhões de libras. Ele começou o Jamie’s Italian em 2008 sob críticas no geral positivas, mas posteriormente admitiu que a companhia abriu unidades demais e não conseguiu manter os preços competitivos.

“Recentemente, o grupo passou por um processo para assegurar investimentos adicionais nos negócios e, desde o começo do ano, Jamie Oliver disponibilizou 4 milhões de libras adicionais para dar suporte à captação de recursos”, informaram ontem administradores da KPMG em um comunicado. “No entanto, como os investimentos apropriados não apareceram e diante do cenário comercial muito difícil, os diretores resolveram nomear administradores.”

Somente dois restaurantes Jamie’s Italian e um Jamie Oliver’s Diner no aeroporto de Gatwick continuarão operando no curto prazo, enquanto os administradores avaliam opções para os locais. O processo não afetará o restaurante Fifteen em Cornwall, controlado pela Cornwall Food Foundation, nem as operações internacionais, que são franqueadas.

“Estou devastado com a recuperação judicial dos nossos amados restaurantes no Reino Unido. Estou muito triste com esse resultado e gostaria de agradecer a todas as pessoas que colocaram seus corações e almas nesse negócio ao longo dos anos”, escreveu Oliver no Twitter.

A KPMG disse que a holding de Oliver garantirá os pagamentos a todos os funcionários até a data da nomeação dos
administradores da recuperação judicial. Normalmente, o “staff” precisa reivindicar os salários devidos no caso de
empresas em recuperação judicial.

Will Wright, um sócio da KPMG que está atuando como administrador adjunto, disse que o cenário comercial do setor “nunca esteve tão difícil”. Ele acrescentou: “Os diretores do Jamie Oliver Restaurant Group vêm trabalhando sem descanso para estabilizar o negócio num cenário de custos em alta e confiança do consumidor fraca”.

O colapso deixará várias grupos locais com prejuízos. Segundo a Datscha, empresa de dados sobre propriedades
comerciais, os conselhos administrativos das cidades de Glasgow, Cambridge, Cardiff, Exeter e Oxford eram locadores do Jamie’s, juntamente com grandes fundos de investimentos em imóveis – como Shaftesbury, Hammerson e Land Securities.

O Jamie’s é uma das várias marcas de restaurantes casuais a mergulhar em dificuldades financeiras. O Gaucho Group fechou 22 unidades operadas pela marca Cau, enquanto a Carluccio fechou 30 restaurantes. A Giraffe e a Gourmet Burger Kitchen também fecharam unidades.

Redes que já passaram por uma reestruturação precisam, cada vez mais, de recursos ou reformulações. A Byron Burgers, que usou um acordo voluntário para reestruturar seu patrimônio de lojas no ano passado, recebeu mais de 10 milhões de libras de seus apoiadores de private equity neste ano. A Prezzo, rede de restaurantes italianos, também firmou um acordo em 2018, fechando 90 unidades.

Segundo a Deloitte, o grupo 80 bar, de restaurantes e hotéis, entrou em recuperação judicial na Inglaterra e no País de Gales no ano passado, com outras 36 empresas recorrendo aos acordos para se reestruturarem.

O mais recente “Market Growth Monitor”, compilado pela CGA e AlixPartners – que atuou como supervisora do acordo de reestruturação da Jamie’s Italian – constatou que 15 restaurantes fecharam as portas a cada semana no ano até março.

Uma pesquisa separada do grupo de contabilidade UHY Hacker Young constatou que quase metade dos 100 maiores
restaurantes do Reino Unido são hoje deficitários.

Muitas dessas redes cresceram de maneira agressiva, frequentemente sob o controle de fundos de private equity, e ficaram com muito espaço em locais não nobres, no momento em que os gastos do consumidor passaram a ser pressionados e os consumidores ficaram cansados das ofertas.

Elas também foram afetadas pelo crescimento dos aplicativos de entrega, como Deliveroo e Just Eat, e pela alta acelerada dos custos associados aos restaurantes, como os salários mínimos e as taxas.

Um analista da indústria de entretenimento disse que, juntamente com os problemas comuns no setor, o Jamie’s “tentouser especial com 25 unidades”, o que não é sustentável para um negócio que tem um chef celebridade no comando. “Se você não estiver no restaurante regularmente, terá de se certificar que seu DNA estará em toda parte, caso contrário, as pessoas passam a questionar porque estão pagando mais. Por fim, os consumidores decidiram que o Jamie’s era mais comum do que especial.”